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“Minha busca a partir de então foi me preparar para que um dia eu pudesse projetar uma máquina que me levaria de volta no tempo para antes de 22 de maio de 1955. Eu queria ver meu pai novamente.”
-Ronald Mallett

Quando tinha 10 anos de idade, o pai do jovem Ronald Mallett morreu subitamente de um ataque do coração. Tremendamente ressentido, o jovem passou toda a sua vida desejando poder ver seu pai novamente, um homem que lhe deu enorme carinho durante toda a sua infância. O desejo foi tanto que incentivou Ronald a se tornar um cientista e passar o resto de sua vida determinado a construir uma máquina do tempo. Pode parecer que estou falando de algum filme B de ficção científica dos anos 80, mas essa é a história real de Ronald Mallett, professor de física da Universidade de Connecticut. Mas como ele planeja fazer isso? Há anos as máquinas do tempo conquistaram seu espaço na cultura popular. Seja com o DeLorean de “De Volta Para O Futuro” ou a Tardis de “Doctor Who”, todos já sonharam em poder voltar ao passado e consertar seus erros ou se dar bem na loteria. Mas será mesmo possível viajar ao passado?

Quadrinhos A Máquina Do Tempo
Adaptação para quadrinhos de 1956

A contrário do que se pensa, o conceito de viagem no tempo remonta à tempos muito mais antigos do que os seriados televisivos modernos. O famoso Mago Merlin já usava sua magia para se deslocar no tempo em fábulas do século XII. Porém, o autor britânico Herbert George Wells foi o primeiro a utilizar a ideia de um dispositivo mecânico de viagem no tempo que utilizasse ciência ao invés de magia. Wells foi o primeiro a utilizar o termo que viria a se popularizar em todos os anos por vir: máquina do tempo. Além disso, Wells teve a ideia de entender o tempo como uma 4ª dimensão. Mas o que ele quis dizer com isso? Nas 3 dimensões espaciais (altura, largura e profundidade), podemos nos mover como bem entendermos. Podemos ir para frente, para trás e sempre que quisermos, podemos retornar ao ponto do qual partimos. Porém isso não acontece com o tempo. Ao longo de toda a história da humanidade, muito se foi especulado sobre a natureza do tempo. Mas uma coisa é inegável: o tempo possui uma “direção preferencial”. Ele sempre corre para o futuro. Ao contrário das dimensões espaciais, você não pode se mover pelo tempo como quiser. E é esse o conceito por trás da máquina do tempo de Wells, a ideia de que é possível sim se mover através do tempo como nos movemos pelo espaço. E é assim que o herói do livro consegue, no puxar de uma alavanca, visitar as eras mais distantes entre o passado e o futuro. Mais isso, é claro, não passa de uma obra de ficção científica, certo? Talvez, porém esses conceitos podem não estar tão distantes da realidade…

“…se o Tempo é apenas uma quarta dimensão do Espaço, por que tem sido sempre e continua sendo considerado algo diferente? E por que não podemos deslocar-nos no Tempo como nos deslocamos nas outras dimensões do Espaço?”
-A Máquina do Tempo, H.G. Wells

Quando se trata de viagem no tempo, é praticamente impossível escapar de um nome: Albert Einstein. O físico deduziu em suas teorias que o tempo e o espaço na verdade são interligados, como dois fios de um tecido. Mas o que isso quer dizer na prática? Quer dizer que o tempo não passa igual para todos. A sua percepção do tempo depende de como você se desloca no espaço. A velocidade da luz, equivalente a 300.000 quilômetros por segundo, é a mais rápida do Universo. Quanto mais você se aproxima dessa velocidade, mais lentamente o tempo passa para você. E ao chegar na própria velocidade da luz, o tempo simplesmente deixa de correr!

Einstein desenhando uma Tardis
Wibbly Wobbly Timey Wimey…

Porém, algo curioso acontece nas fórmulas quando você ultrapassa a velocidade da luz: O tempo passa a correr negativamente! Ainda não se sabe se isso é apenas uma curiosidade matemática ou se existe um análogo na vida real. Por exemplo, será possível existirem partículas mais rápidas que a luz que se movem para o passado? Existem diversos problemas com essa abordagem. Um deles é que Einstein também previu que quanto mais aceleramos um corpo, maior é a sua massa. Ao chegar próximo da velocidade da luz, a massa de um corpo tende a ser infinita, precisando portanto de energia infinita para ser acelerada. Por isso apenas a luz alcança essa velocidade, pois a luz não tem massa. Tudo isso faz parecer impossível uma viagem no tempo dessa forma… Se nem conseguimos acelerar um corpo até a velocidade da luz, como esperamos passar dela?! Existe uma hipótese de que detectamos essas partículas “viajantes do tempo” a todo momento. O grande físico Richard Feynman propôs numa de suas teorias que pósitrons nada mais são do que elétrons se movendo de volta no tempo. Matematicamente não existe diferença entre um conceito e outro. Infelizmente, não é possível hoje testar essa teoria na prática pois, pelo nosso ponto de vista, sempre estaremos medindo um pósitron. Mas será que existe alguma teoria mais palpável que não envolva ficção científica ou “partículas fantasmas”?

Kurt Gödel foi um matemático austríaco e naturalizado norte-americano nascido no berço das teorias de Einstein em 1906. Depois de conectar tempo e espaço, Einstein não parou por aí e meteu a gravidade no meio do bolo. A Teoria da Relatividade Geral mostrou que a gravidade nada mais é do que a distorção do espaço-tempo por uma massa qualquer (seja um planeta ou um hamster). Pense na clássica imagem de uma bola de boliche sobre um lençol estendido. A bola cria uma distorção sobre o lençol. Se eu rolar agora uma bola de gude sobre o lençol, a mesma irá cair na distorção causada pela bola de boliche. A diferença é que a distorção no espaço-tempo, ao contrário de um lençol plano, acontece nas 3 dimensões. (Não tente imaginar ou seu cérebro dará um nó.) E isso implica que quanto maior a força da gravidade sobre um corpo, mais ele sofre os efeitos da retardação do tempo.

Bola num lençol (gravidade explicada)
Representação simplificada da Gravidade

De volta ao que interessa… Gödel se aprofundou num aspecto muito pouco explorado da Relatividade Geral de Einstein: grandes corpos girando. Gödel demonstrou matematicamente que se nós estivéssemos vivendo num Universo girando, haveria a possibilidade física de diversos “loops temporais”. Lembrando que o trabalho de Gödel foi inteiramente baseado na teoria amplamente aceita e comprovada da Relatividade Geral de Einstein.

Ronald Mallett e sua máquina
Ronald Mallett examina um modelo inicial de seu suposto dispositivo

E é nesse trabalho que o Professor Ronald Mallett, o órfão do começo do artigo, se inspira para criar sua máquina do tempo. Para criar loops temporais na prática, seria necessário girar corpos extremamente massivos. Por isso Ronald teve a ideia de utilizar raios de luz no lugar. Apesar de não possuir massa, a luz também é afetada por campos gravitacionais e vice-versa. Isso porque a gravidade afeta tudo que tem energia, não apenas massa, fazendo da luz a candidata perfeita. O Professor Ronald quer criar a primeira máquina do tempo baseada em raios de luz circulantes. Mas será que isso é possível mesmo? Apesar de muito contestado, o Professor Ronald diz que sim e que poderemos ter alguma forma de viagem no tempo ao passado já nos próximos 10 anos. Porém, existe um problema… A teoria de Gödel fala apenas sobre loops temporais, ou seja, voltar ao ponto em que começou. Mesmo que o Professor Ronald consiga completar sua máquina do tempo, ele só poderá voltar no máximo até o momento em que a máquina foi ligada, tornando impossível o sonho de rever seu pai. Apesar disso, como um físico apaixonado, Ronald continua sua pesquisa. E se ele conseguirá completá-la, apenas o tempo dirá.

Confira aqui a Parte 2: Viagem ao Futuro!

Fonte: Livro “How To Build A Time Machine”

6 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Ewerton!

    Para mim, falar sobre o tempo é uma das tarefas mais espinhosas que existem. Acredito que a maior evidência da impossibilidade de retroagir no tempo é o fato de nunca termos recebido uma “visita” de alguém vindo do futuro. Ou será que todos os viajantes foram extremamente cautelosos para que não chamassem nossa atenção? Outra: será que existe um limite para retroagir e o tempo que vivemos se encontra fora desse limite?

    São muitas questões, meu amigo. Daria para fazer um blog apenas com esse assunto.

    Boa sorte em sua nova empreitada!

    Abraço,
    Luiz.

    • Fala, Luiz!
      Essa é exatamente a questão, ou… as questões. Primeiro tive que dividir o artigo entre passado e futuro. Depois tive que cortar 500 assuntos nos quais eu queria falar a respeito e os que ficaram tiveram que ser resumidos. Realmente há assuntos para um blog inteiro! O fato de nunca ter havido um visitante do tempo pode ter a ver com a máquina só poder voltar até o ponto em que foi ligada como a teoria de Ronal Mallett. Porém ao mesmo tempo… Se aliens muito mais antigos que nós já existissem, então esse ponto poderia ser muito mais antigo. Enfim, são muitas questões mesmo. ;) Obrigado pelo apoio! Um abraço!

      Ewerton

  2. Excelente post. O site está excelente e com o layout de dar inveja. Gostaria de ver vídeos de vocês explicando assuntos das mais variadas curiosidades.
    Parabéns !!!

    • Grande Bruno! Obrigado pelo apoio! :) Vídeos podem rolar mas só no futuro. Por enquanto vamos focando no site… Um abraço!

  3. Muito bom, mesmo Ewerton!! Gostoso de ler! Cabe direitinho em uma paradinha para o café quando o trabalho está esquentando a cabeça! Você e Lucas estão de parabéns!!!

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