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Terra vista da Apollo 17
Terra vista da Apollo 17. Repare nas circulações de ar ao Sul…

A água no hemisfério norte gira no sentido inverso ao daqui no hemisfério sul? Sim e não. A resposta pode ser um pouco mais complicada do que parece… Em primeiro lugar, massas de ar e de água tendem sim a girar em sentidos diferentes dependendo do hemisfério em que se encontram. Sentido horário no hemisfério sul e anti-horário no hemisfério norte. É possível notar esse efeito na formação de furacões ou como por exemplo nas nuvens da famosa imagem tirada da Apollo 17 ao lado. “Então é isso? Problema resolvido?” Ainda não… O famoso mito na verdade diz respeito ao sentido para o qual a água da descarga gira. Será que realmente há diferença nesse caso?

Dando descarga em cenouras
Desperdiçou as cenouras e entupiu a privada num teste que não valeu nada…

O fenômeno que rege o sentido de rotação de furacões e grandes massas de água no oceano é a pseudoforça de Coriolis. (Como veremos mais à frente, ela tem esse nome pois não é uma força de verdade.) Ela também atua sobre a água da sua privada, porém, pouco tem a ver com o sentido de rotação da mesma… Se as estatísticas sobre leitura em smartphones estiverem corretas, uma grande parte de vocês que estão lendo esse artigo estão no banheiro. Pela primeira vez, esse é um excelente lugar para estar lendo! Repare na hora de dar a descarga que o jato de água provavelmente será lançado para um lado em específico, o que determinará o sentido de rotação. A pseudoforça de Coriolis “atua” na sua privada, mas a escala da sua privada ou da sua pia é muito pequena para gerar quaisquer efeitos significativos. Ainda que o jato de água não tenha uma direção preferencial, pequenas deformações no interior da “bacia” interferem na direção em que a água gira. Ou seja, a história da descarga no hemisfério norte é um MITO. Porém, o que é a pseudoforça de Coriolis? O que ela pode afetar e por que eu disse que ela não era uma força de verdade?

vinil rodando
A parte de fora do vinil gira mais rápida que a de dentro

Essa pseudoforça é devido à rotação da Terra. O diâmetro da Terra na Linha do Equador é de 40.076 quilômetros, valor que vai “diminuindo” à medida que nos aproximamos dos polos, onde o diâmetro é simplesmente zero. Porém, todas as partes da Terra precisam dar uma volta completa em 24 horas. Ou seja, as partes que precisam “andar” uma distância maior viajarão mais rápido dos que as que precisam viajar uma distância menor. (Pense num disco de vinil, onde a parte de fora “corre” mais rápida que a de dentro.) Portanto, a faixa de terra que se encontra perto da Linha do Equador se move mais rapidamente do que a faixa de terra nos polos. Agora vamos ver por que isso afeta a rotação dos fluidos…

Imagine que você se encontra no Equador e atira uma pedra em direção ao hemisfério norte com sua superforça. Você pode pensar que a pedra viajará em uma linha reta para cima até que atinja o chão. Porém, a pedra tende a manter a velocidade horizontal que tinha ao ser lançada, ou seja, a mesma da faixa de terra no Equador. À medida que ela se aproxima do polo norte, a velocidade horizontal do chão abaixo da pedra fica cada vez menor. Como a pedra manteve sua velocidade inicial, ela agora está mais rápida que o chão abaixo dela, fazendo com que ela “vá para direita” como na figura. Ou seja, não há nenhuma força agindo sobre ela, o que faz a pedra ir para a direita é simplesmente a sua tendência a manter sua velocidade inicial. Mas isso ainda não responde como os furacões se formam…

A pedra foi lançada para cima, porém já tinha uma velocidade "horizontal" igual a do chão. Ao se aproximar do polo Norte, onde a velocidade do chão é menor, a pedra agora tem uma velocidade "horizontal" maior do que a do chão, tendendo a um movimento para a direita.
A pedra foi lançada para cima, porém já tinha uma velocidade “horizontal” igual a do chão. Ao se aproximar do polo Norte, onde a velocidade do chão é menor, a pedra agora tem uma velocidade “horizontal” maior do que a do chão, tendendo a um movimento para a direita.
Representação simplificada de Coriolis
Representação simplificada de Coriolis

O centro de um furacão é uma área de baixa pressão. Ou seja, o ar mais pressurizado em volta tende a convergir para esse centro, como se fosse um ralo. Se esse furacão estiver localizado no hemisfério sul por exemplo, o ar que é “puxado” de baixo tende a ir para a esquerda desse centro e o ar que vem de cima tende a ir para a direita. Ou seja, formará um redemoinho. Resumindo, essa diferença de velocidade entre diferentes partes da Terra é o que causa a pseudoforça de Coriolis. Junto com o centro de baixa pressão, formam-se os furacões. Porém, na prática, o efeito Coriolis se aplica apenas a grandes fluidos se movendo lentamente como oceanos e a atmosfera, não ao produto final do seu café da manhã…

Fontes: NOVA PBS, SciShow

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