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Ben Underwood colocando seus olhos falsos
Ben Underwood colocando seus olhos falsos

O garoto americano Ben Underwood foi diagnosticado com câncer na retina com apenas 2 anos de idade. Aos 3 anos, Ben teve seus olhos retirados numa cirurgia. Porém, um ano após sua cirurgia, Ben espantou sua mãe num passeio de carro ao perguntar se ela estava vendo o prédio grande ao lado deles. O que podia ser apenas um golpe de sorte de um garoto cego passeando em meio a vários prédios, era na verdade o primeiro sinal do despertar de suas habilidades. Naquele momento, o garoto realmente sabia da existência de um prédio ao seu lado… Ben estava ecolocalizando.  

A ecolocalização é um sentido crucial em animais como morcegos e golfinhos, que vivem em condições onde a visão é insuficiente para a sobrevivência. A ecolocalização, também chamada de biosonar, nada mais é que a percepção do ambiente através das ondas sonoras. Assim como as ondas de luz refletem em objetos e trazem informações até nossos olhos, as ondas sonoras também trazem informações quando refletem em objetos. Veja essa animação do sistema de biosonar em um golfinho por exemplo. Golfinhos emitem um estalido de alta frequência através de um órgão especializado em suas cabeças. Quando esse som retorna às suas cabeças, seus cérebros processam e interpretam essas informações. Através do lapso temporal entre a emissão e a recepção de retorno do estalido, é possível saber a distância e a forma aproximada do objeto em questão. Humanos ecolocalizadores geralmente utilizam um estalo com a língua. Acontece que conseguimos produzir apenas 2-3 estalos por segundo, enquanto que golfinhos produzem de 20 a 800 por segundo em alta frequência, gerando uma “imagem” muito mais nítida. Porém, golfinhos vivem em águas turvas e morcegos na escuridão da noite… Como e por quê um humano teria essa habilidade?!

Biosonar do golfinho
Biosonar de um golfinho

Ainda não se sabe exatamente o motivo de possuirmos essa habilidade oculta, porém, humanos surpreendentemente podem sim ecolocalizar. Ben Underwood não é uma aberração da natureza… Relatos de pessoas cegas que usam sons para se localizar datam desde o século 18. Essa habilidade, se já não é estranha por si só, se torna ainda mais quando analisamos o cérebro de um ecolocalizador. Nossos cérebros tem aversão a ecos e suprimem a maior parte deles durante todo o dia. Ou seja, os ecos chegam aos nosso ouvidos, porém simplesmente ignoramos. Se não fosse assim, até uma conversa comum se tornaria ininteligível. Porém, os cérebros de ecolocalizadores aprenderam a processar esses ecos e interpretar as informações que eles trazem. Para deixar claro, ecolocalizadores como Ben não apenas conseguem saber a distância de objetos pelos ecos, eles conseguem formar uma imagem mental do ambiente ao seu redor… Literalmente!

Cérebro de um ecolocalizador cego
Cérebro de um ecolocalizador cego vs pessoa comum

Assim como mostra a imagem ao lado, áreas de processamento visual do cérebro e outras responsáveis pela audição se ativam no cérebro de ecolocalizadores quando os mesmos escutam certos ecos “com informações” por um fone de ouvido. No cérebro de pessoas com visão normal à direita, absolutamente nenhuma dessas áreas respondem aos ecos, pois simplesmente são suprimidos. A grande questão aqui é que esses cegos também utilizam a parte visual do cérebro para processar sons! Através na neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro de se remodelar, essa parte visual que não estava sendo utilizada passa a ser posta em uso, processando também informações auditivas. Porém, o que exatamente ecolocalizadores conseguem “ver”?

Demolidor, o herói cego em nova série da Netflix
Demolidor, o herói cego em nova série da Netflix

Demolidor, o herói cego da Marvel, consegue compreender o mundo através dos seus super sentidos. Sua ecolocalização é tão poderosa que ele consegue “enxergar” tudo através de prédios inteiros e até saber quando alguém está mentindo pelas suas batidas de coração. Porém, quão bons são os ecolocalizadores da vida real? Bem, para isso, vamos analisar a história do Batman… Não, não esse Batman! Daniel Kish, provavelmente o maior e mais famoso especialista e instrutor em ecolocalização do mundo, foi carinhosamente apelidado de “Batman” exatamente por suas habilidades de ecolocalização (assim como os morcegos). Daniel faz coisas absolutamente incríveis para um cego como andar de bicicleta pela cidade e distinguir objetos complexos como arbustos e cercas. Daniel diz que ecolocalizadores experientes podem inclusive “ver” coisas que pessoas comuns não veem como a densidade de alguns materiais e através de barreiras sólidas. Porém, até ecolocalizadores muito talentosos ainda estão muito longe de um Demolidor… Daniel Kish, apesar das incríveis habilidades, utiliza uma bengala guia em conjunto com a técnica. Ainda assim, objetos como canos finos, que dispersam o som e retornam pouco eco, ainda são difíceis de serem detectados por ecolocalização, rendendo boas estabacadas na rua…

Ben-Underwood
Ben Underwood, o garoto que podia ver sem os olhos

Ben Underwood, o garoto do começo do artigo, conseguia jogar (e ganhar) no totó, andar de patinete, acertar cestas de basquete e jogar videogame (e ganhar novamente) apenas se orientando pelos sons do jogo… Ben inclusive teve que sair de uma escola para cegos porque queria continuar fazendo coisas como  jogar futebol e correr pela rua. Quem não conhecia sua história demorava a perceber que ele era cego. Sua habilidade era tanta que ele não se considerava deficiente e se recusava a utilizar a bengala, chamando-a de “dispositivo de deficiência”. Uma outra pessoa também pensava a mesma coisa quando era mais jovem: Daniel Kish. Daniel se encontrou com Ben uma vez e tentou ensiná-lo a importância da bengala, de fazer mapas mentais ao chegar em um local novo e de outras técnicas importantes para o dia-a-dia de um cego. Porém, Ben era orgulhoso e só queria se orientar através da ecolocalização, ignorando as vezes em que ficou perdido e esbarrou em coisas. Talvez tenha sido apenas a confiança de um gênio, que pode ter sido o maior ecolocalizador humano da história. Porém, nunca saberemos seu verdadeiro potencial. Ben faleceu aos 16 anos de idade, pelo mesmo câncer que tirou seus olhos… Junto com Daniel Kish, ele ajudou a mostrar ao mundo o poder da ecolocalização e conseguiu acender uma vela num mundo que para algumas pessoas é muito, muito escuro…

Fontes: Wired, Documentário: The Boy Who Can See Without Eyes, Grand Fork Sherald

 

2 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Ewerton!

    Artigo interessante. Certa vez, conheci um maluco que conseguia distinguir o material de uma parede pelo reflexo do som. Acredita nisso? :D

    É por isso que o grande mestre Jedi Qui-Gon Jinn costumava dizer: Remember, concentrate on the moment. Feel, don’t think. Trust your instincts.

    Forte abraço!

    • Fala, Luiz!

      Acho que conheci esse cara! O nome dele por um acaso era Luiz? Hahaha Acho que essa citação de Qui-Gon Jinn tem a ver com um tipo de foco que em inglês chamam de “being in the zone”, um estado de atenção plena. Bem legal… Um abraço!

      Ewerton

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