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Site ridículo sobre carro a água.
Site super confiável e bem feito…

O carro a água talvez seja o queridinho dos idealistas que sonham com um futuro limpo e mais verde. Afinal, imagine poder abastecer seu “possante” apenas com água da torneira! Fora as bilhões de toneladas de CO2 que deixariam de poluir nossa atmosfera todos os anos… Além deles, outro grupo que ama a ideia de um carro movido a água são os teóricos da conspiração. Armados de suas maiores fontes, os sites com layout de 1980, canais do Youtube sobre ETs e histórias dos avôs, esses conspiracionistas dizem que o carro a água já foi inventado (em muitas das histórias por um brasileiro) e que as malvadas empresas de petróleo deram um sumiço no pobre gênio… Afinal, imagine todo o dinheiro que eles ainda ganharão com poços de petróleo! Porém, essa história não se sustenta. Ou, se é real, os donos de petrolíferas não sabem muito sobre ciência… Isso porque essa “tecnologia” já é conhecida desde os anos 1800! Além disso, os carros a água já existem e estão por todo lugar. Com uma breve pesquisa no Youtube é possível descobrir centenas de mecânicos amadores que converteram seus carros para essa tecnologia. “Ora, mas então por que todos os carros não são assim?!” Para responder a essa pergunta, vamos entender melhor como esses carros funcionam. Essa “tecnologia” da qual eu me referi parte de um fenômeno químico, a eletrólise.

Piada carro a água
O verdadeiro carro movido a água…

Além de nomear refrigerantes e péssimos filmes de sereias, “H2O” também é a fórmula química da água. Ou seja, a molécula de água é formada por dois átomos de hidrogênio ligados a um átomo de oxigênio. Acontece que o hidrogênio, sozinho, é um excelente combustível! Muito mais eficiente que a gasolina… Além disso, o único subproduto da combustão do hidrogênio é vapor d’água. Ou seja, adeus a todos os poluentes liberados por veículos todos os dias! Se pudéssemos quebrar as ligações dessas moléculas e extrair o hidrogênio teríamos um combustível e tanto, não é mesmo? Além disso, sobraria um átomo de oxigênio para cada dois de hidrogênio, sendo que o oxigênio é necessário para a queima! A combustão nada mais é do que uma reação química entre um combustível (Ex:Gasolina, carvão, hidrogênio…) e um comburente (Quase sempre o oxigênio.) e que libera luz e calor. Parece uma utopia, não? Porém é exatamente isso que esses veículos, através da eletrólise, fazem! Uma célula eletrolítica (muitas vezes caseira) fica responsável pela eletrólise da água, separando o hidrogênio do oxigênio e formando uma mistura gasosa entre esses dois comumente chamada de HHO (por conta de agora os elementos estarem separados) e que sofrerá a combustão no motor. Só tem um problema… Essa separação não ocorre de graça. O termo “eletrólise” vem dos radicais eletro (eletricidade) e lisis (decomposição), ou seja, decomposição através da eletricidade.

eletrólise da água
Eletrólise da água. As moléculas recebem elétrons e os átomos de hidrogênio se “desprendem”

O carro a água realmente funciona, porém, para que haja essa quebra das moléculas de água, é necessário que se forneça energia à elas através de eletricidade. E de onde vem essa eletricidade? Geralmente da bateria do carro, cuja energia foi gerada em algum outro lugar, como por exemplo uma usina de carvão. Além disso, mesmo com os métodos mais eficientes, é simplesmente impossível retirar mais energia do que se põe. Ou seja, no fundo, o que estamos usando é a energia elétrica de uma bateria possivelmente gerada em fontes poluentes e ainda por cima perdendo uma parte dela! O carro a água apenas joga a sujeira para debaixo do tapete… Enquanto isso, jornalistas brasileiros sem um pingo de conhecimento e dez litros de sensacionalismo promovem matérias como essa aqui, alegando que um inventor criou um carro movido a água que alcança incríveis 1000 km por litro de água. Ainda por cima, no vídeo, o “inventor” diz que isso é possível com o processo de hidrólise. Porém, hidrólise é a quebra de uma ligação química pela água, não da água. Ou seja, o grande gênio não conseguiu nem usar o termo “eletrólise” corretamente. Além disso, o dito “inventor” não inventou nada pois esses kits são vendidos aos montes em sites como o Mercado Livre… Para completar, apesar de ser mais eficiente, o hidrogênio é consumido muito mais rápido que a gasolina e seu armazenamento ainda pode apresentar um sério risco de explosão… “Mas então a eletrólise é completamente inútil?”

Painel Celular fazendo eletrólise
Painel Solar armazenando energia em hidrogênio através da eletrólise

Calma, não é bem assim… A eletrólise é uma boa forma de armazenar energia por exemplo. “Como assim?” Você sabe como funciona uma pilha? Muitas pensam que os elétrons ficam estocados lá dentro como um pequeno depósito, mas não é nada disso… A energia armazenada na pilha é energia química. Quando você conecta os terminais de uma pilha, uma reação química ocorre lá dentro e isso gera a eletricidade que flui de um terminal a outro. Ou seja, é o oposto da eletrólise! A eletrólise então pode ser usada para “carregar” baterias de hidrogênio. Por exemplo, a energia elétrica gerada pela captação de energia eólica ou solar pode ser utilizada para gerar hidrogênio a partir da eletrólise. Esse hidrogênio então pode ser transportado e utilizado como combustível em veículos. Porém, na verdade, os carros a hidrogênio modernos utilizam o processo inverso. Por meio de uma chamada “célula de combustível”, o hidrogênio se une novamente ao oxigênio, gerando eletricidade e vapor d’água. Outra possível utilidade é que alguns entusiastas dizem que o hidrogênio gerado pela eletrólise pode ser queimado em conjunto com a gasolina para melhorar o desempenho do carro. Porém nenhuma economia fantástica foi apresentada até hoje…

O topetudo criador Nunzio La Vecchia e sua criação, o super carro elétrico Quant
O topetudo criador Nunzio La Vecchia e sua criação, o super carro elétrico Quant

Para ser justo, é possível que a molécula de água seja “quebrada” através de outro métodos… Algumas companhias dizem combinar certas substâncias com a água e que uma das substâncias resultantes da reação química é o hidrogênio. (Estranhamente, essas empresas nunca divulgam detalhes do processo…) Porém, mesmo que isso seja verdade, precisamos então utilizar uma nova substância e, obviamente, pagar por ela. Ainda por cima, essa substância provavelmente seria gerada ou retirada de algum lugar utilizando energia. Ou seja, novamente a história de jogar para debaixo do tapete… O mais perto que chegamos talvez seja com o Quant, um carro elétrico que supostamente utiliza água do mar para alcançar incríveis 378 km/h, uma aceleração de 0 a 100 km/h em apenas 2,8 segundos e já inclusive ganhou autorização para rodar pelas estradas europeias. Porém, a bateria química  ainda precisa ser abastecida com dois fluidos eletrólitos. “É preciso energia para fabricar o elétrólito, blá, blá, blá…” Ou seja, aquela mesma história de sempre… O Quant é verdadeiramente impressionante e sua nova tecnologia apresenta diversas vantagens em relação aos carros elétricos atuais. Porém, nem o topetudo que o inventou, nem nenhum inventor brasileiro desconhecido conseguiu a façanha de um carro movido apenas a água. Por enquanto esse sonho fica mesmo limitado ao imaginário dos tão incompreendidos teóricos da conspiração…

Fontes: Popular Mechanics, Química: A Ciência Central (livro), E-farsas, The Skeptic’s Guide To The Universe

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