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A primavera está acabando e junto com ela vão as bonitas flores que embelezam nosso dia a dia. Agora vamos parar com esse momento de fofura fora de hora e vamos ao que interessa: por que as flores são bonitas?
Muitas pessoas são capazes de dizer que elas são bonitas para atrair pássaros e insetos que são os responsáveis pela polinização, isto é, transporte de pólen de uma planta até a outra para que elas se reproduzam. Na realidade é ao contrário: as flores são atraentes porque os animais se interessam por elas. Calma, eu explico.
A cada geração de indivíduos, algumas poucas modificações acontecem nos genes. Afinal, se a genética não se alterasse, seríamos todos iguais, como gêmeos. Ela se altera no momento de produção dos gametas, células reprodutivas (nos humanos: espermatozoide e óvulo) em um processo chamado Crossing-Over. Nessa etapa, dois cromossomos fazem uma troca de genes. Dessa forma, genes novos são criados e características novas surgem nos animais. Acompanhe o crossing overdesenho super-realista que temos para explicar. Cada “H” é um cromossomo que possui vários genes e eles desempenham as mesmas funções no corpo: no nosso exemplo, eles definem a cor dos olhos de humanos. O azul define a cor azul dos olhos e o verde, advinhe, a cor verde. No Crossing-over, uma parte de um vai para o outro e vice versa, gerando cromossomos com características diferentes, nesse caso, possivelmente, olhos com tonalidades entre o completo azul e o verde. Este é só um exemplo, mas isso acontece com qualquer característica de qualquer ser vivo.
Ao longo do tempo, essas pequenas modificações são acumuladas e acabam ocasionando modificações significativas. No caso das flores, podemos imaginar as primeiras mais antigas como sendo bastante sem graças, verdes, da mesma cor do resto da planta e sem nenhum cheiro especial. Alguma modificação aleatória nos genes faz com que essa região das flores produza pigmento azulado e essa planta passa a ter flores um pouco mais azuis, provavelmente roxas. Esse processo de mudança genética que acontece ao acaso se chama mutação e não tem a ver necessariamente com superpoderes.

beija flor
Beija-flor, prefere a flor mais vistosa (1) em relação à “flor feia” aqui representada como um borrão sem forma (2).

Os animais que se alimentam de pólen acabam se sentido atraídos por esse acidente natural e genético que resultou na modificação da cor e acabam preferindo polinizar plantas com essas cores. Daí o que acontece com as outras plantas que não são roxas? Elas têm sua reprodução prejudicada e com o tempo tendem a desaparecer. E só sobram as outras mutantes.
O mesmo aconteceu com o perfume das flores que atraíam esses animais. No final das contas, hoje, a grande maioria das flores tem cores e aromas chamativos. Outra consequência dessas modificações é que os animais acabam preferindo espécies específicas de flores, mas por que isso é vantajoso? Pois é uma garantia a mais de que o pólen de uma planta vai para outra planta da mesma espécie e, assim, que a fecundação vai ser um sucesso.Amorphophallus_titanum_-_Botanischer_Garten_der_Universität_Basel_03

Por outro lado, insetos carniceiros (que comem coisas estragadas) acabaram polinizando flores que tinham aromas que lembravam coisas podres. Se não fossem por eles, plantas como a Amorphophallus titanum (chamada carinhosamente de “planta-cadáver”) não existiriam. No caso dessa, besouros carniceiros fazem o trabalho da polinização.

Charles_Darwin_photograph_by_Herbert_Rose_Barraud,_1881_2Essa dinâmica de mutação que acontece ao acaso, seguido de seleção natural são as bases do raciocínio da evolução de Charles Darwin, esse velhinho barbudo tão incompreendido e ao mesmo tempo tão importante para a história da ciência.

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