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O Natal não é um evento como outro qualquer. Ao contrário de outros feriados, toda a cidade se transforma para o Natal. Às vezes até as pessoas, sob a influência de um suposto “espírito natalino”. Já em clima de fim de ano, tempo de retrospectiva, é muito comum que seu cérebro comece a evocar diversos tipos de lembranças. Talvez seja a memória das rabanadas que sua avó fazia, você ganhando sua primeira bicicleta ou até mesmo a sua caça ao Papai Noel quando era pequeno. É inegável que essa época do ano costuma nos deixar um tanto nostálgicos… Mas por quê? Bem, vamos começar essa discussão com uma outra pergunta… O que é nostalgia?

neanderthals meme
Curta se você lembra…

A palavra nostalgia vem do grego “nóstos” (volta para casa) e “álgos” (dor) e por muitos anos foi considerada uma condição médica grave. Isso porque era associada a soldados, que ao estarem na guerra, sofriam tanto com a saudade de casa que se tornavam totalmente debilitados, incapazes de cumprirem seu dever. Nesse caso, nostalgia é algo bem triste. Mas será que deve ser sempre assim? Nostalgia é um sentimento um tanto complexo que inclui um tanto de tristeza e um tanto de felicidade. Ao mesmo tempo em que você revive bons momentos do passado, você precisa enfrentar a dor de não poder voltar a ele. A não ser que você tenha uma máquina do tempo. Mas por que essa época específica nos deixa propensos a nostalgia? Como dito no começo do artigo, porque o Natal é único.

Se você acaba de completar, digamos, 20 anos, parabéns! você tem exatos 7300 dias vividos, apenas 20 dos quais foram natais. E isso contando com os que você mal consegue se lembrar… Existem coisas que você só experiencia no Natal: músicas natalinas, comidas típicas do Natal, aquele seu tio contador de piadas que você só vê nessa época… Existem coisas muito importantes na sua vida, consideradas pelo seu cérebro como dignas de serem lembradas e que aconteceram apenas em 20 dos 7300 dias de sua vida. Quando você chega num local conhecido como sua faculdade ou seu trabalho, nos quais você passa a maior parte dos dias, seu cérebro terá centenas (se não milhares) de episódios possíveis a lembrar. Já quando seu cérebro recorda natais passados, ele precisa buscar memórias de no mínimo um ano atrás. Memórias essas que são únicas em vez do seu chefe exigindo mais trabalho pela milésima vez. Porém, isso não é tudo. Existe um fator um tanto inesperado que pode ajudar a evocar esse sentimento nessa época do ano… Os cheiros.

Scrat cheirandoMemórias episódicas, que são as memórias autobiográficas que podem ser conscientemente recordadas, são um conjunto de informações de todos os nossos sentidos combinados. Porém nem todos os sentidos são “gravados” da mesma maneira. Pesquisadores descobriram que informações olfativas passam por um caminho diferente do seguido pelas informações dos outros sentidos, sendo processadas pelo cérebro antes mesmo de nos tornarmos conscientes delas! Por essa razão, memórias olfativas são muito mais poderosas e interligadas a outras. Quando você sente o cheiro de uma rabanada, seu cérebro evoca muito mais detalhes do passado do que quando você olha para uma árvore de Natal ou escuta a música da Leader. Isso contribui ainda mais para a formação da nostalgia, visto que existem pratos que só comemos no Natal. Porém, se memórias mais fortes geram maior nostalgia, por que não somos nostálgicos pelo que aconteceu um minuto atrás? Ou pelo começo desse artigo? A curva de reminiscência pode nos dar uma resposta…

Retenção de memórias ao longo dos anos
Retenção de memórias ao longo dos anos

Imagine um gráfico de retenção de uma memória em função do quão antiga ela é. (Ou em vez de imaginar, você pode ver a figura ao lado mesmo…) Talvez você esperasse que fosse uma linha reta, ou seja, quanto mais antiga for uma memória, menos vividamente lembramos dela. Mas não é bem isso que acontece… Existe um “morro” nessa gráfico conhecido como “curva de reminiscência” (“reminiscence bump” em inglês) por volta dos 20 anos de idade. Ou seja, humanos tendem a se lembrar melhor de fatos que aconteceram entre os 10 e 30 anos de idade. Isso talvez seja porque esse período engloba a adolescência e a passagem para a vida adulta, os períodos geralmente mais conturbados emocionalmente na vida de uma pessoa e onde ela está mais preocupada em formar uma identidade

“Um homem se propõe a tarefa de desenhar o mundo. Ao longo dos anos, povoa um espaço com imagens de províncias, de reinos, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas. Pouco antes de morrer, descobre que esse paciente labirinto de linhas traça a imagem de seu rosto.”

– Jorge Luis Borges

O que faz você nostálgico? Nostalgia é tudo sobre você. As coisas que lhe causam nostalgia não são as que me causam. Cada pessoa possui experiências distintas e portanto memórias distintas. Memórias essas que não são meros retratos frios da realidade. Num estudo, pesquisadores conseguiram implantar memórias falsas em voluntários apenas mostrando a eles imagens editadas de eventos que nunca aconteceram. Em outro, conseguiram implantar inclusive histórias de que cometeram crimes horrendos quando crianças. A partir desse momento, os voluntários conseguiam inclusive contar detalhes específicos sobre as coisas que “aconteceram” no dia fictício. Isso porque memórias não são fixas, elas estão sempre vivas e se transformando a partir do momento em que são criadas. Talvez seja essa a principal função da nostalgia: Trazer a nós um senso de identidade. O punhado de átomos que forma nossos corpos são constantemente reciclados durante nossas vidas. São nossas experiências e a maneira única pela qual nos recordamos delas que fazem de nós… Nós. Um feliz Natal e boa nostalgia!

2 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Ewerton!

    Será que tal nostalgia guarda alguma relação com o fato de você achar que nos passado as coisas eram melhores, da mesma forma que no futuro você vai achar que as coisas que acontecem agora são melhores?

    De qualquer forma, já diziam os antigos: recorda é viver! Como você mesmo registrou em seu texto, nossas lembranças (boas ou ruins) é que fazem de nós aquilo que somos. Se a vida está melhor ou pior é uma questão tão peculiar quanto aquilo que provocam nossas nostalgias.

    Enfim, ao contrário do que muitos pensam, ter uma boa memória pode não ser algo tão vantajoso (tenho uma pequena experiência com isso). Do fundo, ,ais importante do que lembrar, é aprender a lidar com nossas recordações.

    Feliz “Nastalgia” para ti também!

    Abraço,
    Luiz.

    • Fala, Luiz!

      Infelizmente não posso deixar o artigo muito longo. Papai Google não gosta. Também não tive muito tempo para tal… Então não pude dizer tudo que queria sobre nostalgia. Mas você está certo sim! As pessoas em geral tendem a recordar esses eventos nostálgicos através de uma lente positiva. Engraçado… Todos dizem que a geração passada foi a melhor. Os Neandertais deviam viver numa sociedade e tanto! Feliz Natal, Luiz! Um abraço!

      Ewerton

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