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experimento do rato na gaiola com drogas
Experimento do rato com água drogada

O que faz uma pessoa se viciar em drogas? Alguns mais engraçadinhos talvez respondam “As drogas. Duh!”. Porém, de acordo com tudo que sempre ouvimos falar sobre drogas, essa resposta é mesmo a correta. A própria droga age no seu cérebro causando sua dependência, certo? O máximo que podemos estender isso é dizendo que as drogas possuem substâncias viciantes em suas composições, como a nicotina no cigarro. Essa teoria foi estabelecida com a ajuda de diversos experimentos com ratos. Nos anos 80, um famoso comercial circulou nos Estados Unidos citando um famoso experimento a favor de um país livre de drogas. Nele, ratos eram colocados em gaiolas com duas garrafas d’água. Uma continha água comum e a outra continha água misturada com heroína ou cocaína. Quase todas as vezes em que se fazia esse experimento, os ratos ficavam fissurados com a água drogada, bebendo-a até morrerem de overdose. O antigo comercial dizia “Apenas uma droga é tão viciante que 9 em cada 10 ratos de laboratório irão usar. E usar. E usar. Até que estejam mortos. É chamada cocaína. E pode fazer o mesmo com você.” Parece tudo muito claro, não? As drogas são viciantes e portanto precisamos proibi-las… Porém, seria possível que essa teoria tão bem aceita estivesse errada? Parece muito improvável que esses argumentos sejam refutados… Mas foi exatamente o que o professor de psicologia canadense Bruce Alexander fez. Bruce notou algo que antes ninguém havia dado atenção… Os ratos estavam em gaiolas.

rat park
Ratolândia, o paraíso dos ratos

É difícil acreditar que tudo que nós, como sociedade, acreditávamos sobre drogas estava errado. Mas foi exatamente isso que Bruce provou com seu experimento do “Parque de Ratos”. Para fins de dar um nome maneiro melhor compreensão, chamarei de Ratolândia. O professor Alexander percebeu que todos os ratos desse experimento estavam confinados em jaulas, sozinhos e sem absolutamente nada para fazer. Não tinham amigos, brinquedos, alguém para copular… A única coisa que tinham para fazer era, você adivinhou, se drogarem. Então ele pensou: O que aconteceria se esses ratos fossem colocados numa Ratolândia, uma “jaula de luxo” espaçosa, cheia de brinquedos, túneis, amigos e então rodássemos o mesmo experimento? E foi exatamente o que ele fez. Todos os ratos obviamente provaram da água drogada pois não sabiam o que tinha dentro da garrafa. Agora aqui está a parte interessante… Quando colocados no paraíso, quase nenhum optava pela água drogada e absolutamente nenhum a usou compulsivamente ou morreu de overdose. Não é sobre a droga, é sobre a sua jaula! Ora, se esse experimento pudesse ser comprovado com humanos, tudo o que sabemos sobre drogas viria por água abaixo! Mas seria ilegal, para não dizer extremamente antiético, rodar esse experimento com humanos… Será mesmo? E se eu te dissesse que houve um experimento desse com milhões de americanos no século passado? Esse experimento foi a guerra do Vietnã.

guerra do vietnam
A guerra é psicologicamente devastadora…

Aproximadamente 20% das tropas americanas se tornaram viciadas em heroína durante a guerra. A revista Time reportou que usar heroína era como mascar chiclete para esses soldados… A população já estava temerosa de que, quando a guerra acabasse, haveriam milhares e milhares de drogados pelo país. Porém o que aconteceu é que 95% dos soldados viciados simplesmente pararam de usar a droga. Isso sem absolutamente nenhuma ajuda médica ou psicológica… Pela teoria antiga, isso não faz o menor sentido! Quando os soldados estavam em guerra, cansados e aterrorizados, sem saber se voltariam para casa, o uso de heroína parecia uma maneira bastante sensata de gastar o tempo. Quando os soldados retornaram daquela situação horrível para suas casas e seus familiares, isso era o equivalente aos ratos saindo das jaulas solitárias direto para a Ratolândia. Ainda não está convencido? Todos os anos, diversos pacientes que passam por cirurgias complicadas são tratados com diamorfina, nome médico para a heroína. A “heroína médica” é muito mais poderosa que a heroína das ruas pois essa última é de baixa qualidade e adulterada por traficantes. Porém, apesar de serem tratados por meses com a substância, os casos em que esses pacientes se tornam viciados são raríssimos. “Mas e as substâncias viciantes nas drogas? São um mito?” Elas existem sim. Porém o papel delas na formação do vício é muito, muito menor do que imaginávamos. O que realmente importa aqui é a necessidade de conexão. Quando estamos felizes, nos conectamos com as pessoas ao nosso redor. Quando estamos deprimidos, isolados ou com a saúde fraca, precisamos nos conectar com algo que nos dê alguma forma de alívio. Porém, isso não inclui apenas drogas…

garota no facebook
A droga do século XXI

A dopamina é o neurotransmissor que ajuda a regular o centro de prazer do seu cérebro. Quando estamos infelizes, recorremos a outras coisas que façam seu cérebro liberar dopamina e ativar esse centro de prazer. Drogas fazem isso… Mas também os videogames, sua comida favorita, pornografia, compras, Facebook… Quando não podemos nos conectar com pessoas das quais gostamos, recorremos a outras coisas para preencher esse vazio. Do ponto de vista do seu cérebro, não há diferença entre o vício em drogas e o vício em qualquer uma das atividades citadas anteriormente. Todas funcionam da mesma forma. Quando você começa a usar drogas demasiadamente, seus receptores de dopamina se dessensibilizam, fazendo com que você precise cada vez de mais e mais do mesmo. Assim acontece com compras e comilanças compulsivas, pornografia cada vez mais pesada, apostas cada vez maiores, busca por mais e mais likes no Facebook… Todos nós somos, em menor ou maior escala, viciados em alguma dessas atividades nocivas. Porém, a questão não é que essas atividades sejam viciantes, e sim as nossas gaiolas! Se precisamos dessas coisas, é porque vivemos numa sociedade que é muito mais parecida com a gaiola cruel do que com a Ratolândia… Será então que podemos reverter isso?

Jesse do Breaking Bad
Tem volta depois da primeira vez?

Procurando responder a essa pergunta, o professor Alexander seguiu com seus experimentos. Dessa vez, ele deixou os ratos por 57 dias isolados nas gaiolas ruins dos experimentos antigos. Tempo suficiente para que eles se viciassem… Depois, levou-os para Ratolândia e repetiu o experimento. Será que as drogas os dominaram de vez? O que aconteceu foi que os ratos sofreram por um tempo mas depois conseguiram retornar para suas vidas normais e viver felizes novamente. (Awww) E o que será que fazemos com nossos drogados? Em vez de percebermos que essas pessoas estão mal e precisando de ajuda, os tiramos de suas “vidas-jaula” e os jogamos em jaulas reais, as cadeias. Depois os tratamos como o lixo da sociedade e entendemos que, se são drogados, é porque são pessoas de péssimo caráter… Se estão viciados, é porque não eram felizes. A pesquisa do professor Alexander demonstra isso. Fazemos isso tudo sem perceber que estamos no mesmo barco, nos conectando com diversas outras atividades compulsivas. batgirl no celularA questão é perceber que o problema não são essas atividades! Não adianta proibir maconha, cocaína ou o Facebook. Se hoje vemos jovens que não tiram os olhos do celular, devemos perceber que é porque vivemos numa sociedade infeliz, uma versão humana da gaiola dos ratos. Na verdade, não deveríamos dizer que existem viciados em drogas, e sim pessoas conectadas às drogas por falta de uma conexão melhor como livros, esportes, uma família presente ou amigos de verdade…  A solução é trabalharmos para construir uma sociedade que se pareça mais com uma Ratolândia do que com jaulas isoladas. Assim poderemos nos conectar novamente ao que realmente importa, pessoas.

O artigo acima foi inteiramente baseado no fantástico trabalho do canal “In A Nutshell” com o autor Johann Hari. Você pode conferir o trabalho deles aqui!

Vídeo bônus abaixo: Simples e fantástico curta sobre como funciona um vício.

Fontes: In a Nutshell, Huffington Post (Johann Hari), Psychology Today

8 COMENTÁRIOS

  1. Salve, Ewerton!

    Cuidado com esse título! Pode ser comprometedor!

    Analisando o caso da “ratolândia”, podemos entender o porquê de o Sr. Jingles ter vivido tanto tempo. Afinal de contas, devia existir algo similar na “ratópolis”. (E eu pensando que fosse mérito do John Coffey).

    Brincadeiras a parte, será que poderíamos traçar um paralelo entre os resultados da experiência e as conclusões do prof. Alexander? Será que nós, seres humanos, somos mais complexos do que os ratos? Por outro lado, será que o mundo do entretenimento realmente está nos transformando em meros ratinhos de laboratório?

    Nesse caso, acho que Nietzsche (aprecie com moderação) tinha razão. Talvez isso seja um sintoma da degeneração dos valores mais elevados em uma sociedade que faz de tudo para evitar uma reflexão acerca das angústias existenciais. Mas isso é uma longa história…

    Abraço,
    Luiz.

    • Fala, Luiz!

      Hahaha Tive que buscar essa referência hein! Meu alzheimer precoce não me permitiu lembrar… Não acho que somos tão mais complexos que os ratos. Quando começamos a analisar friamente, percebemos que nos comportamos igual animais mesmo. Isso porque somos mesmo! Hahaha Toda essa questão é meio complicada. Ratolândia não era sustentada sozinha, e sim pelos cientistas. Será mesmo possível construir uma versão humana desse experimento? Abraço!

      • Rapaz, eu já te falei para ficar longe desse alemão! Principalmente depois do 1 x 7! :)
        Eu imaginei que você, um admirador da obra de Stephen King, não teria dificuldades para captar a referência! :)
        Partiu experimento? Quer ser a primeira cobaia?
        Abraço,
        Luiz.

        • Hahaha Não tem como, Alzheimer me acompanha… Enfim, será possível construir uma ratolândia no meio da jaula? Eu seria uma cobaia de boa. Pior do que aqui não deve ficar. Haha Abraço!

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